sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Pai

       O dia 4 de Julho me traz uma tristeza desde os meus 5 anos. É claro que, mesmo que todas as minhas atitudes indicassem, com essa idade eu não tinha idéia disso. Não me lembro nem se eu achava que eram atitudes normais de uma criança.
       Conforme fui crescendo essa tristeza foi se mostrando de uma forma fora do controle de qualquer pessoa, se transformando em incessantes mudanças de humor. Quando me tornei grande o suficiente para notar o porque dessa tristeza percebi que meu pai tinha deixado mais saudades do que uma menina de 5 anos poderia sentir; logo comecei a parar todo dia 4 de julho e olhar para o céu, parabenizando qualquer nuvem, qualquer pássaro, qualquer estrela como se fosse ele - que, na minha cabeça e no meu coração de filha, realmente eram.
       Hoje, nos meus quase vinte anos, acordei no dia 4 de julho e percebi que a tristeza não era porque era seu aniversário, e sim porque eu não sou capaz de lembrar de qualquer comemoração que tenhamos feito juntos.
       A lembrança mais forte da minha infância - na verdade uma das únicas - foi o dia em que você foi tirado de nós. As lembranças mais vagas da minha infância? Você! Meu grande medo sempre foi o esquecimento: esquecer-me de você parecia algo imperdoável.
       Não tenho como definir o aperto no peito que sinto ao pensar em ti. Não tivemos tempo para criar qualquer vínculo sem ser o de pai e filha, o qual eu nem pude aproveitar direito. É ruim me culpar por cada vez que penso e seu rosto não vem a minha mente. É ruim me culpar por toda vez ter que ver uma foto para tentar lembrar ou imaginar o quanto você tratava a todos tão bem. Confesso que algumas vezes te senti ao meu lado, cuidando de mim nos momentos em que eu mais precisei; talvez eu tenha criado sua presença, já que eu não sei como ela foi verdadeiramente.
       Mas Deus compensou (e entenda que compensar não é substituir) toda essa dor e tristeza com um presente, com uma segunda chance de ter um pai, e é nesse medo que eu vivo hoje, de perder novamente e, dessa vez, sabendo o quanto é bom.

(2009)

Nenhum comentário:

Postar um comentário